Nota do Editor

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Entramos em 2021 sem uma certeza das ações que o governo pretende tomar em relação à vacinação da população contra a Covid-19. O Plano de Imunização que foi apresentado é bastante vago, longe de levar à sociedade alguma esperança de imunização. Se apostou em apenas uma vacina, a da Oxford-AstraZeneca, e há uma ridícula disputa política entre o presidente e o governador de São Paulo sobre outra vacina, a Coronavac, da China. Das 331 milhões de seringas estimadas para vacinar os primeiros grupos, só se conseguiu, até o final de 2020, 7,9 milhões. Não temos vacinas e, se tivéssemos, não teríamos seringas para aplicá-las. A Anvisa, pelo que foi noticiado, tem feito exigências mais complexas do que os órgãos que aprovaram vacinas nos Estados Unidos e Europa. O governo quer que quem for se vacinar assine um termo de responsabilidade. E que os laboratórios é que devem ir à Anvisa, e não o governo procurá-los para garantir o fornecimento de vacinas, além de se responsabilizarem se algo der errado com a vacina (ver Blog da Conjuntura Econômica) Ou seja: cada dia aparece um novo obstáculo, enquanto vemos vários países já iniciando a vacinação, com uma segunda onda da pandemia voltando a levar a um progressivo aumento de casos e mortes mundo afora.

E todos sabemos que, sem vacina, o vírus continuará circulando, sofrendo mutações e impactando fortemente a atividade econômica

No último dia 30, no entanto, um sopro de esperança. Depois do Reino Unido aprovar o uso emergencial da vacina da Oxford-AstraZeneca – o que foi seguido pela Argentina –, a Fiocruz anunciou que iria entregar os últimos documentos para registro da vacina no Brasil até 15 de janeiro. E a vacinação poderia começar, na melhor das hipóteses, na terceira semana de janeiro. Mas pode haver um pedido de uso emergencial da vacina pela Fiocruz, o que também foi sinalizado pela Pfizer.

Enquanto perdurar essa incerteza, pior para a atividade econômica. Como relata a editora Solange Monteiro na matéria de capa, a incerteza implica a impossibilidade de prever a evolução da economia, que pode paralisar decisões de investimento e comprometer a trajetória potencial de recuperação. No Brasil, ela está calcada especialmente em dois fatores, sobre os quais o governo federal não teve sucesso em endereçar em 2020: a definição de medidas para equilibrar a necessidade de retorno à agenda de ajuste fiscal com o aumento da demanda de gastos provocada pela Covid-19; e o próprio controle da pandemia, raiz de todo o problema, que se agrava pela falta de um planejamento tempestivo para garantir celeridade na imunização.

#FiquemBem

Claudio Conceição | claudio.conceicao@fgv.br

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