A moeda comum do Sul (Sur): Um desvio desnecessário

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A moeda comum do Sul (Sur): Um desvio desnecessário

Precisamos de foco e eficiência no debate público, promovendo iniciativas que permitam o desenvolvimento sustentado do país. Desviar o foco para a adoção de uma moeda comum com a Argentina não parece se alinhar a esse objetivo.

Muita atenção tem sido dada, nos últimos dias, ao debate sobre a criação de uma moeda comum no Mercosul (o chamado Sur). Tal ideia ganhou tração após entrevista do ministro da Economia argentino, Sergio Massa, ao periódico inglês Financial Times, além de artigo publicado pelos presidentes de Brasil e Argentina, Lula da Silva e Alberto Fernández, no jornal argentino Perfil, no qual defenderam o início de discussões para a criação de uma moeda comum na América do Sul. A lembrança de que o ministro da Fazenda brasileiro, Fernando Haddad, e seu secretário-executivo, Gabriel Galípolo, também defenderam tal tese em 2022 (portanto, ainda antes de suas posições públicas atuais) ajudou a dar mais peso ao debate.

Em seu artigo do ano passado, Haddad e Galípolo sustentaram a criação de uma moeda sul-americana como forma de impulsionar a integração regional, fortalecendo a soberania monetária dos países da América do Sul ao reduzir a necessidade de acesso à moeda forte (por exemplo, o dólar americano) para operacionalizar as suas trocas financeiras e comerciais. Não era claro, em seu argumento, se a nova moeda substituiria as moedas nacionais, ou se consistiria em um instrumento paralelo para a cotação e liquidação do intercâmbio entre os países.

Massa, em sua entrevista ao Financial Times, sugeriu que os estudos em curso avaliavam a criação de uma moeda comum entre Brasil e Argentina, traçando paralelo com o Euro – ou seja, ao final seria introduzida uma divisa única entre os países, substituindo tanto o Peso Argentino como o Real. Haddad e Galípolo não rechaçavam tal entendimento em seu artigo de 2022, ao dizer que as que nações “teriam liberdade para adotá-la domesticamente ou manter suas moedas”. Estava feita a confusão.

A teoria das áreas monetárias ótimas, desenvolvida a partir do trabalho seminal de Mundell (1961)[5], estipula uma série de requisitos que, quando cumpridos, aumentam as chances de que uma moeda única possa gerar benefícios líquidos ao países que optem por abrir mão de sua independência fiduciária. De maneira geral, é necessário que os países-membros possuam: (i) forte integração comercial; (ii) forte integração bancária; (iii) diversificação das estruturas produtivas; (iv) livre mobilidade de fatores produtivos, como capital e trabalho; e (v) convergência dos ciclos econômicos, com implicações sobre as políticas monetária e fiscal. Não é difícil afirmar que Argentina e Brasil não atingem tais requisitos.

Leia na íntegra no Blog do IBRE.

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