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09/01/19

Atividade exportadora não deverá aliviar queda do PIB argentino em 2019, diz analista

Notícias IBRE

O impacto da agenda de ajustes vivido pela economia argentina – desde que a aceleração do processo de normalização da economia norte-americana e de valorização do dólar desvelou o alto nível de exposição cambial do país, levando-o novamente às portas do FMI –, não deverá ser aliviado pela retomada da atividade dos exportadores, como espera o governo Macri. “O governo defende que uma melhor safra e o crescimento das exportações podem atuar como elementos expansivos da economia em 2019, mas nenhum dos dois têm sido fatores suficientemente potentes para modificar os ciclos econômicos da Argentina, menos ainda na atual conjuntura”, diz Enrique Dentice, coordenador do Centro de Pesquisa e Avaliação Econômica da Universidade San Martín, em conversa com a Conjuntura Econômica.

Na estimativa do governo, as exportações seriam a única frente, pelo lado da demanda, a registrar crescimento positivo no ano, de 16,3%. Certo otimismo com os números do setor não são infundados. A forte quebra de safra da soja em 2018 deve colaborar com um efeito base positivo. Já para o segmento de carne bovina, dados do USDA apontam a uma expansão maior das vendas argentinas, em volume, que a dos principais exportadores: um crescimento de 15% em 2019, contra 4% do Brasil, 2% dos Estados Unidos, e retrações tanto nas vendas da Índia quanto da Austrália. E, para o lítio, há boas perspectivas de expansão produtiva: de acordo a estudo da empresa de análise Global Data, de 2018 a 2022 o país será responsável por 29% da produção adicional desse insumo no mundo. Dentice ressalta, entretanto, que o humor global é outro, e não deve colaborar para que esse potencial se converta em aumento de receita. “É possível que a guerra comercial entre Estados Unidos e China continue, podendo provocar aumento de alíquotas, fechamento de mercado e redução de preços, impactando o resultado das exportações argentinas”, diz. “Ainda no setor externo, teremos que observar o comportamento do Brasil com o novo governo, que pode nos afetar seja por uma desvalorização cambial, um ajuste que estimule a contração da economia do país, reduzindo a demanda, ou bem um enfraquecimento do Mercosul”, completa.
 
A estimativa de Dentice é de que o PIB argentino retraia 2,7% em 2019, queda um ponto percentual mais acentuada que a da última previsão do FMI. E pior: sem o cumprimento da meta combinada com o Fundo, de levar o déficit primário dos estimados 2,7% em 2018 para zero em 2019. Os motivos elencados pelo economista argentino são vários, começando pela inflação. “Estimávamos que esta fecharia o ano em 28,7%, mas já estamos revisando esse número para cima, devido ao reajuste nas tarifas de transporte público e pedágio, que devem impactar o IPCA em 5%”, conta. Com um aumento dos salários projetado para 23% este ano, isso representaria uma perda de poder aquisitivo adicional à registrada em 2018, de 17%, segundo Dentice, um pouco abaixo da observada para as aposentadorias, de 20%. E que o consumo privado, que na estimativa do governo retrairia em torno de 1%, deverá cair ainda mais.
 
Ainda pelo lado da demanda, Dentice recorda que os investimentos foram fortemente impactados pelo ajuste, e que precisariam voltar à casa dos 24% do PIB – contra atuais 16% – para se converter em real estímulo econômico. A Carta do IBRE da edição de janeiro da Conjuntura Econômica aborda o ajuste fiscal argentino, com uma análise do pesquisador Livio Ribeiro, que também ressalta o tamanho desse corte. Segundo Ribeiro, a queda do gasto primário argentino de 2015 a 2018 foi de 3,72 pontos percentuais do PIB, dos quais 93% são redução de subsídios (2,14 p.p.) e investimentos (1,31 p.p.). O texto também indica a dificuldade do país, tanto quanto o Brasil, de fazer mudanças para conter gastos previdenciários. No ano passado, o governo anunciou a criação de um Conselho de Sustentabilidade Previdenciária para debater os termos de uma reforma, mas a iniciativa não avançou, anulando a possibilidade de Macri emplacar uma reforma até o final do mandato, que se encerra em 2019. “Macri não terá muito a fazer para resgatar a popularidade perdida para tentar uma reeleição”, avalia Dentice, apontando que a estratégia do presidente no começo deste ano foi focar na agenda de segurança, com um projeto de redução da maioridade penal a 15 anos de idade para delitos graves, que deverá ser apresentado ao Congresso em fevereiro.