Nota do editor

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Ninguém mais duvida de que as pressões inflacionárias vão aumentar. Só não se sabe até quando isso irá e em que patamares a inflação vai se acomodar. Uma série de fatores está empurrando a curva de preços para cima. A pandemia, que paralisou a atividade econômica mundo afora, deixou amargos legados, não apenas nas mortes, destruição de famílias inteiras, no aumento da desigualdade, mas estendeu seus tentáculos sobre a economia e a política.

O retorno a uma realidade de normalidade, com as economias voltando a funcionar, está levando a um aumento generalizado de preços, com muitos setores testando a capacidade do consumidor em pagar o que está se pedindo. Cabeleireiros, manicures, bares, restaurantes e um grande leque de serviços, os mais afetados pela pandemia, tentam recuperar as perdas com aumento de suas margens. A pandemia também aflorou outro problema: a falta de insumos para a cadeia de produção, o que está levando a uma pressão sobre os preços. Está difícil comprar carro novo. Quando se consegue, depois de uma fila de espera, o preço pedido pode trazer uma surpresa desagradável. Os preços dos automóveis novos subiram 10,54% de agosto do ano passado até julho, conforme o IPC-Br, calculado pelo FGV IBRE. Cerca de 74% da indústria de veículos afirma estar com falta de insumos para a produção, segundo a Sondagem do FGV IBRE de junho último. Mais de 82% do setor de bens duráveis reclama de falta de insumos: 65,8% acreditam que a cadeia de suprimentos se normalizará somente em 2022.

Há outras pressões: a crise energética, com os reservatórios das regiões Sudeste/Centro-Oeste com um nível crítico de 22,8% em julho, levando à adoção da bandeira vermelha nas contas de luz e encarecimento da energia para os consumidores e empresas: a energia subiu 8,5% o mês passado e deve ter um novo repique este mês da ordem de 4,5%, como prevê André Braz, do FGV IBRE. O preço da energia aumentou 21,75% de agosto de 2020 a julho último.

Além da estiagem, que afeta os reservatórios, ela também está fazendo estragos no campo. Os preços dos alimentos, embora tenham apresentado um alívio recentemente, ainda estão bastante elevados. Só as hortaliças ficaram 35,15% mais caras neste segundo trimestre do ano. O arroz, básico na alimentação dos brasileiros, teve uma alta de 37,64% entre agosto do ano passado e julho último.

A escalada de preços tem como principal vilão os energéticos. A inflação dos últimos 12 meses, medida pelo IPC-Br desse grupo disparou: a gasolina aumentou 40,04%, o etanol, 56,52%; e o gás de botijão, 25,77%. E parece que as coisas não vão parar por aí no curto prazo.

#FiquemBem

Claudio Conceição | claudio.conceicao@fgv.br

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