Nota do editor

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A atividade econômica ficou estagnada no segundo trimestre do ano, depois de três altas consecutivas. O Produto Interno Bruto (PIB) recuou 0,1% em relação ao primeiro trimestre do ano, puxado por quedas na agropecuária, de 2,8%, na indústria, de 0,2%, e nos investimentos, de 3,6%.

Com maior peso no PIB, o setor de serviços que foi duramente afetado pela pandemia, respirou um pouco crescendo 0,7% em relação ao trimestre anterior. O resultado, em grande parte, se deve ao avanço da vacinação e à flexibilização das medidas restritivas. 

Com os números do segundo trimestre, as previsões de expansão do PIB já estão sendo revistas para baixo pelo mercado, especialmente para os que estavam com previsões bem superiores a 5%. O Boletim Macro revisou de 5,2% para 4,9% o crescimento do PIB este ano. 

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E há grande preocupação com os rumos da economia no ano que vem. Uma série de fatores jogam muita incerteza sobre o futuro próximo. Abaixo, elenco alguns:

Inflação
Voltou a acelerar, o que corrói o poder de compra, comprometendo uma recuperação mais vigorosa do consumo das famílias. Além disso, o comprometimento da renda com dívidas está elevado, especialmente de camadas mais pobres da população. 

Crise política
O acirramento das tensões e ameaças de rupturas institucionais, com muita gente jogando gasolina na fogueira para “apagar” o fogo – as preparações para as manifestações de 7 de setembro são um exemplo disso, entre tantos -, só afugenta investimentos, criando um clima de enorme incerteza. Os investimentos no segundo trimestre deste ano caíram 3,6% sobre o anterior.

Crise hídrica
A falta de chuvas fez despencar os níveis dos reservatórios, abrindo uma grave crise hídrica. Foi criada uma nova bandeira tarifária que vai pesar muito no bolso dos consumidores e empresas, espraiando-se por todos os setores da economia, pressionando ainda mais a inflação.

Desemprego
Com uma taxa de 14% de desempregados, e com a economia andando de lado no segundo trimestre, como disse o ministro Paulo Guedes, não há perspectivas a curto prazo de uma melhora significativa no emprego. Sem emprego, menos pessoas com condições de consumir. O consumo das famílias no segundo trimestre, que vinha puxando a recuperação brasileira, não avançou no segundo trimestre.

Juros
Devem continuar sua trajetória ascendente, dadas as condições ainda adversas da economia. Mais um elemento para pressionar os preços e retrair o consumo.

Cenário externo
Embora os números mostrem uma atividade mais forte no mundo, o crescimento econômico começou a perder um pouco de fôlego, frustrando expectativas de uma recuperação mais robusta, o que pode ter impactos por aqui.

Retomada desigual
A falta de insumos para a cadeia produtiva, que afeta todas as economias, tem levado a uma retomada desigual entre os setores. No Brasil, depois de três trimestres de crescimento, a indústria recuou junto com a agropecuária. O setor de serviços, que mais pesa no PIB, avançou 0,7%, taxa ainda modesta. Tudo indica que o terceiro trimestre também será desigual: a indústria de transformação já recuou 1,2% em julho, em relação a junho, e as Sondagens do FGV IBRE sinalizam que o setor de serviços deve continuar se recuperando.

Claudio Conceição | claudio.conceicao@fgv.br

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