Nota do editor

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Presidente empossado e ministério montado. O ano começa com um misto de esperança e apreensão. O temor maior é com relação à questão fiscal. A Carta do IBRE lembra que em 2021 e 2022 os resultados fiscais registrados no Brasil surpreenderam de forma positiva, embora seja necessário quantificar essa melhora: o resultado primário do setor público consolidado foi positivo em 0,7% e 1,1%, em 2021 e 2022, respectivamente. Para este ano, a grande incerteza é se o novo governo vai conseguir lidar com o desequilíbrio fiscal que, segundo Samuel Pessôa, em sua coluna Ponto de Vista, tomou rumos mais complicados com “a decisão de Lula de aprovar uma PEC que elevará o gasto público em uns R$ 175 bilhões, sendo que R$ 150 bilhões não têm previsão de receita compensatória e, portanto, impactarão diretamente o endividamento público. Para piorar o quadro, uns dos primeiros atos do novo governo foi enviar uma medida provisória (MP) mantendo por alguns meses a desoneração dos combustíveis, medida eleitoreira de Bolsonaro que deveria ter sido revertida. O custo fiscal, a depender do prazo, é da ordem de R$ 40-R$ 50 bilhões”.

Sem um fiscal controlado – o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, disse recentemente que deve enviar ao Congresso, ainda neste primeiro semestre, proposta de uma nova âncora fiscal –, não há crescimento, a inflação sobe, o real se desvaloriza e os investidores ficam com um pé atrás.

Como tem sido mencionado no Boletim Macro FGV IBRE, o crescimento da economia este ano deve ser pífio: a previsão é de uma alta de 0,2%. Os ventos favoráveis que sopraram no primeiro ano do governo Lula e, em parte, no seu segundo mandato, mudaram de rumo. O cenário externo está mais hostil, com desaceleração da economia mundial.

Não será um ano fácil. Como mostrado em nossa matéria de capa, de autoria da editora Solange Monteiro, para diversos economistas, está claro que uma retomada sustentada da economia só acontecerá com a adoção de políticas que tenham como princípio a ampliação da produtividade, que há décadas cresce pouco no Brasil e cuja reação passa, entre outros, por uma macroeconomia equilibrada. Esse foi um dos legados deixados por Regis Bonelli, pesquisador do FGV IBRE, falecido há 5 anos, que durante sua trajetória estudou as causas do baixo crescimento do país. No último dia 16 de dezembro, seminário em sua homenagem, realizado pelo FGV IBRE, resgatou os importantes trabalhos e estudos de Regis para o país.

Claudio Conceição – claudio.conceicao@fgv.br

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