Dosando o otimismo

Compartilhe

Afora o impacto do ataque americano ao Irã nos mercados financeiros, que foi breve e transitório, como previsto, o cenário externo começou o ano de forma relativamente favorável. Há sinais mais nítidos de estabilização da atividade econômica mundial, após meses de desaceleração, com a maioria dos indicadores econômicos sinalizando queda do risco de uma recessão global em 2020.

Há, portanto, uma melhora do cenário em relação a 2019, ano que foi marcado por diferentes quadros de tensão internacional, apontados como potenciais causas principais de uma eventual (e temida) recessão. O setor industrial, que foi o mais afetado pela redução do comércio mundial, tem mostrado ligeira recuperação na Europa e na maioria dos países asiáticos. Já nos EUA, os dados ainda indicam fraqueza desse setor. Contudo, o setor de serviços segue bem resiliente. De fato, na grande maioria dos países há descompasso não apenas entre o setor industrial e o setor serviços, como também entre os investimentos e o consumo das famílias, este sustentado por um mercado de trabalho que se mantém bastante favorável.

Considerando que parte relevante da piora da economia mundial em 2019 foi decorrente das incertezas advindas das tensões entre EUA e China, a assinatura da Fase 1 do Acordo representa um importante passo para redução do risco global. Após 18 meses de vaivéns em negociações e muitas retaliações tarifárias de ambos os lados, que atrapalharam cadeias de fornecimento, o acordo prevê que a China vai comprar mais US$ 200 bilhões em produtos agrícolas e outros bens e serviços dos EUA ao longo de dois anos, ante uma base de US$ 186 bilhões em 2017.

Esse cenário internacional relativamente otimista não é, entretanto, desprovido de riscos para o Brasil. Em primeiro lugar, o acordo terá impactos negativos sobre a nossas exportações, de acordo com a análise da seção do Setor Externo. Em segundo lugar, um recrudescimento dos conflitos geopolíticos, como a tensão entre os EUA e o Irã, pode afetar os mercados em escala global.

Com a redução das tensões externas, aí incluídos o enfraquecimento dos protestos na América Latina, pelo menos por ora, e uma certa normalização observada na Argentina, as atenções se voltam mais fortemente para o cenário doméstico, no qual também prevalece o otimismo. Efetivamente, a narrativa de que “agora a coisa vai” deve se fortalecer nos próximos meses, mesmo porque a todos interessa que isto aconteça.

Não obstante, nas últimas semanas, apesar do otimismo do mercado com relação à retomada do crescimento, os indicadores econômicos mostram ritmo de crescimento bem moderado. Mesmo com o excelente desempenho do consumo das famílias no último trimestre do ano passado, há frustações em relação aos demais indicadores. Com efeito, a indústria de transformação tem mostrado fraco desempenho, com destaque negativo para os setores automobilístico e de bens de capital. Com as divulgações de novembro e as previsões esperadas para dezembro, revisamos a projeção do crescimento do PIB no quarto trimestre, em relação ao terceiro, de 0,8% para 0,6%, ainda que mantendo a projeção de alta de 1,2% no ano passado. Os sinais de fraqueza de alguns indicadores econômicos no quarto trimestre reforçam o cenário do IBRE de um crescimento ainda bem modesto no início do ano. Conforme discutido em edições anteriores do Boletim Macro, o resultado positivo do quarto trimestre está relacionado com o desempenho do consumo das famílias, que deve ter crescido 1,1% em relação ao trimestre anterior. Ao mesmo tempo, o investimento deve ter recuado 0,2%. Pelo lado da oferta, estimamos que a indústria de transformação tenha crescido apenas 0,1% no trimestre, valor insuficiente para recuperar a perda do trimestre anterior, de 1%. Enquanto isso, o setor de serviços deve ter acelerado o ritmo de crescimento entre os trimestres, de 0,4% para 0,6%. Para o primeiro trimestre de 2020, esperamos desaceleração em todos os setores da economia, de forma que o PIB deve crescer apenas 0,2%. Essa desaceleração é esperada por conta da redução dos efeitos da liberação do FGTS sobre o consumo e pela aceleração da inflação observada desde dezembro de 2019, inflação que deve permanecer elevada nos primeiros meses do ano, reduzindo, portanto, o poder de compra as famílias. Para os três trimestres seguintes, esperamos crescimento em torno de 0,5% por trimestre, em média, levando o crescimento do PIB para 2,2% no ano.

Mesmo com o reajuste para R$ 1.045 mensais, o aumento da informalidade tende a reduzir o impacto do aumento nominal do salário mínimo sobre a renda do trabalho média. Este é um dos destaques da seção de Mercado de Trabalho. A partir de meados de 2020, esperamos uma acomodação da inflação, que deve fechar o ano em 3,7%, ante 4,3% em 2019. Além disso, esperamos uma alta maior do emprego formal ao longo do segundo semestre de 2020, o que também deve contribuir para a recuperação gradual da renda real.

Outros indicadores que reforçam esse cenário de moderação do consumo das famílias no início do ano são os índices da Sondagem do Consumidor. Conforme destacado na seção sobre as expectativas de empresários e consumidores, o indicador de estresse financeiro revela que o orçamento das famílias ainda está apertado.

Moderar o otimismo também é importante para que não deixemos de lado as reformas, que continuam sendo muito necessárias. De fato, é importante destacar que, no cenário doméstico brasileiro, o risco principal é que o senso de urgência se reduza neste segundo ano do governo Bolsonaro. Conforme destacado na edição anterior do Boletim Macro, a tendência a procrastinar a adoção de soluções para os problemas estruturais do Brasil existe, e pode aumentar com a recuperação cíclica da economia.