Entrevista de Flávio Dino | Conjuntura Econômica

Entrevista de Flávio Dino | Conjuntura Econômica

Flávio Dino (PCdoB), governador do Maranhão

Por Claudio Conceição e Solange Monteiro

O senhor tem apoiado uma frente ampla pela democracia, e é signatário do movimento Estamos Juntos, com outros nomes como Luciano Huck. Considera possível avançar em um projeto reunindo diferentes forças políticas?
Vejo a frente ampla numa dupla face. Uma já está ocorrendo, que é uma dimensão de movimento, em que não há propriamente um ato cartorial, fundador solene, mas você tem convergência em ações práticas que visam em primeiro lugar a defender a dimensão da democracia política e das liberdades civis, mas que também se articula em outros debates. Por exemplo, essa frente ampla derrotou o governo no auxílio emergencial, que inicialmente propunha apenas R$ 200. Então essa unidade na ação já está ocorrendo, e abre condições para que a gente possa debater a segunda face de uma frente ampla, que são eventuais acordos, pactos eleitorais. 

Considera possível quebrar a resistência do PT em dividir espaço com outros partidos, principalmente a do ex-presidente Lula, que nas últimas eleições praticamente não fez acordos - o que de certa forma colaborou para a eleição do presidente Bolsonaro?
Acho que transpor fronteiras da esquerda é difícil em função de mágoas pretéritas, mas devemos tentar, pois o risco bolsonarista é muito grande, não se pode minimizá-lo. E acho que os obstáculos podem ser vencidos, inclusive este pertinente à posição tática do PT neste momento. Primeiro porque não é uma posição de todo o PT. E, em segundo lugar, não acredito que essa tendência isolacionista seja algo que venha para ficar. Acho que isso é mais um momento de afirmação da legenda, de tentar superar determinados ataques, eventualmente preconceitos, do que uma tendência perene. 

Isso significaria a possibilidade de o PT abdicar de ser cabeça de chapa em 2022?
Sim. Não é provável hoje, mas é possível. Teremos um teste empírico que serão as eleições municipais. É mais ou menos o momento em que o conjunto de forças políticas – não só à esquerda, mas ao centro e à direita – vão medir o seu tamanho. Acho que as eleições municipais funcionarão como antessala para essa temática. Tenho conversado bastante com o ex-presidente Lula, e não vejo nele uma posição intransponível. É claro que ele luta pelo partido dele, que mais do que um direito dele, é até um dever. Mas ao longo de sua trajetória política o ex-presidente Lula já demonstrou ter muita intuição e muita flexibilidade. Então, eu não acredito que essa rigidez aparente vai se manter até 2022.

O fim das coligações proporcionais nas próximas eleições municipais também deverá mudar a cara do sistema partidário. Como imagina que isso influenciará o redesenho da esquerda?
A nova legislação eleitoral por si só levará a que tenhamos uma diminuição do número de partidos, de modo geral. Com as cláusulas de barreira, de desempenho, com fim das coligações proporcionais, isso já conduz a que saiamos de 30 partidos para algo em torno de 8, 10 quando muito. Inevitavelmente, no plano jurídico formal teremos fusões, incorporações. O PCdoB mesmo já passou por isso, pois fundimos com o PPL (Pátria Livre), com o que conseguimos ultrapassar a cláusula de barreira (que iniciou com os resultados das eleições de 2018). Do lado da esquerda tenho sustentado que um arranjo institucional frentista é o melhor. Vemos isso no Chile com a Concertación, tem o Frente Amplio também no Chile e no Uruguai, ou mesmo na África do Sul, com o Congresso Nacional Africano (CNA). Eles mantêm sua trajetória, porém não disputam eleições individualmente. Acho que isso tem de acontecer em todos os campos políticos, e ainda mais na esquerda, pois o nível de divergências quanto ao futuro é muito pequeno. Mas é preciso traduzir isso numa coisa que a população entenda. E que tenha credibilidade. Porque não basta que acreditemos que temos as melhores ideias. É preciso que os outros acreditem. 

Qual sua avaliação da participação dos militares no governo?
A maioria do estamento que usa arma na cintura hoje ainda é bolsonarista. Isso vale para as Forças Armadas, vale para as polícias. O que noto é que progressivamente nesse grupo há quem estabeleça fronteiras, a partir das quais não passam. Vejo isso nitidamente em relação a dois temas: milícias e ruptura da ordem constitucional. Ou seja, nem todo militar bolsonarista é militar golpista. Acho isso positivo. A segunda coisa que noto também é que há, progressivamente, uma tendência de diferenciação entre os que estão dentro da máquina de governo, que tendem a defender o seu lugar – até porque traz benefícios pessoais, de ampliação de renda, por exemplo – de outro conjunto que não está. Este começa a se preocupar com o fato de as Forças Armadas estarem se vinculando simbolicamente a uma determinada corrente política que não ficará, graças a Deus, para sempre no poder. Esses segmentos mais profissionais das Forças Armadas, mesmo que simpatizem com Bolsonaro, também começam a achar over essa vinculação quase que carnal de alguns expoentes do meio militar com Bolsonaro. 

Então, estamos vivendo hoje um processo de reacomodação. Hoje, sem dúvida a posição de Bolsonaro é de muita força; porém, mais frágil do que um ano atrás. Exatamente porque houve essa diferenciação. Um militar profissional que não está em cargo no serviço público civil não vai tomar o caso (Fabricio) Queiroz, da mulher do Queiroz, do advogado que recebia dinheiro sabe Deus como. É uma nova tendência, que a meu ver é a mais correta, no sentido de que instituições de Estado não devem se vincular visceralmente a experiências contingenciais, pois se uma instituição o faz, amanhã com uma mudança política ela pode sofrer reveses. Portanto, acho que muitos setores das Forças Armadas vão se dando conta que é melhor uma posição mais profissional, de estado, do que propriamente uma coação militante ou milicianizada.


Leia a íntegra desta entrevista na edição de julho da Conjuntura Econômica.