Entrevista de Vinicius Botelho | Conjuntura Econômica

Entrevista de Vinicius Botelho | Conjuntura Econômica

Vinícius Botelho – pesquisador associado do FGV IBRE, ex-secretário nacional nos ministérios de Desenvolvimento Social e da Cidadania

Por: Solange Monteiro, do Rio de Janeiro 

Como avalia nossa estrutura de qualificação profissional frente às mudanças estruturais no mercado de trabalho?
Se comparado com países da OCDE, o Brasil um padrão de reunir mais políticas passivas de mercado de trabalho do que ativas. Ou seja, pagamos muito mais benefício do que oferecemos serviço. O problema do lado ativo são as dificuldades em intermediação de mão- de-obra e qualificação profissional, em alinhar a formação dos trabalhadores com as necessidades do mercado de trabalho. Isso é uma dificuldade histórica do Brasil. Tivemos a experiência do Pronatec, que foi horrorosa em termos de efetividade. Tinha metas ousadas de atendimento de público, mas não foi capaz de atender dois pontos essenciais: à vinculação ente objeto dos cursos e necessidade econômica local; e a uma vinculação entre habilidades das pessoas e cursos oferecidos. Isso deixou um legado ruim para agenda de qualificação profissional no Brasil. Ficou a impressão de que é uma agenda fadada ao fracasso, sendo que já tivemos outras experiências positivas. O Supertec, por exemplo (lançado em 2017), já avançou no mapeamento da demanda de empresas. O Mdic levantava a necessidade de contratação e oferecia cursos com base nessa necessidade. E agora surgem novos programas.

São iniciativas que têm dificuldade de decolar, em termos de quantitativo de pessoas, por conta da restrição orçamentária. O orçamento foi minguando, em grande parte, pela má avaliação do histórico de políticas nessa linha. O que é ruim, pois é uma política particularmente relevante para população de mais baixa renda. O Brasil tem uma das mais altas taxas de rotatividade no mercado formal de trabalho do mundo. E essa rotatividade é concentrada trabalhadores com remuneração de menos de dois salários mínimos. Isso tudo coloca uma série de oportunidades de aprimoramento das relações de trabalho no Brasil que pode ter repercussões positivas para a pauta social. 

Como se deve estruturar políticas de qualificação profissional levando em conta o impacto da pandemia?
Uma das coisas que já conseguimos mapear é a defasagem de profissionais para a área de tecnologia, pois esta já existia. E ela tende a ficar mais forte, pois trata-se de um setor vai sair maior do que entrou no processo de transformação econômica provocado pela pandemia. Nesse caso, cabe tecer uma estratégia para suavizar essa transição das pessoas entre setores da atividade econômica. Em geral, as pessoas têm vieses cognitivos na hora de procurar emprego, no sentido de procurar na mesma atividade do emprego perdido. E quando você tem uma ruptura tecnológica, em que alguns setores encolhem e outros expandem, é importante que você não tente corrigir esse viés de busca – porque trata-se de uma questão cognitiva – mas oriente a pessoa a fazer uma busca de forma diferente. Esse processo não é trivial para as pessoas. Tipicamente, somos ruins em coisas que fazemos pouco. Trocar de setor de atividade é algo que ao longo da vida fazemos pouco. Nos setores em que haverá maior impacto, será preciso ter uma estratégia para redirecionamento de pessoas.  

Essa intermediação já existe no mercado, feitas por grandes empresas com programas de recolocação profissional. Mas essa não é uma realidade para todos, portanto, apoiar esse tipo de atuação tem valor como política pública.  Não precisa ser um programa 100% público, mas alguma atuação púbica é importante para resolvermos algumas falhas de mercado que surgem no processo. 

Como construir arranjos voltados especialmente à população que, como o próprio ministro Guedes se referiu, estavam invisíveis na informalidade, em situação vulnerável?
Acho que uma iniciativa positiva dentro do governo seria uma aliança tripartite, que unisse informações do Cadastro Único, dispostas do Ministério da Cidadania; das habilidades dessas pessoas, como as que são medidas em provas padronizadas como as do Enem (sob responsabilidade do Inep, do Ministério da Educação); e o histórico de experiência que elas têm em empregos, registrado no Ministério do Trabalho. Ter a junção de dados nessas três áreas permite traçar um mapa da vulnerabilidade de hoje, o potencial de sair da vulnerabilidade e o histórico de empregabilidade. Vale destacar que, quando falamos de políticas para superação da pobreza em públicos como o do Bolsa Família, a primeira coisa que não devemos fazer é generalizar. São mais de 40 milhões de pessoas de todos os perfis, de área urbana e rural, alguns com ensino superior, mas cuja distribuição mais frequente é entre os que têm ensino médio parcial ou concluído, e outro grupo grande que parou no começo do fundamental. Não dá par tentar colocar a mesma política para todos. Tem que verificar habilidades e conseguir fazer um mínimo de orientação para direcionar pessoas para o mercado de trabalho de forma a colocá-las nos setores que realmente tem demanda, conforme suas habilidades. 

Escolha profissional é também uma das escolhas que fazemos pouco na vida. E é uma escolha que acontece entre as classes sociais de maneira distinta. Por exemplo, escolas privadas de alto padrão costumam promover feira de carreiras, explicar profissões. Pessoas nascidas em famílias de mais alta renda também costumam ter referências familiares que podem ajudar. Na baixa renda, isso é mais escasso. Não se promove discussão nas escolas, até porque poucos têm pretensão de ir ao ensino superior. São jovens que ficam à deriva. Há uma discussão interessante, da qual participa Esther Duflo (franco-americana vencedora do Nobel de Economia em 2019), sobre como o ensino médio não faz sentido para o jovem de baixa renda, já que é construído para preparar as pessoas para o ensino superior. E numa idade em que esse jovem já se vê no mercado de trabalho ganhando alguma. Então ele evade a escola, e vai amenizar seu problema imediato, resolver o hoje. Mais tarde, entretanto, verá que empresas rechaçam candidatos que sequer tenham completado o ensino médio, mesmo que estejam preparadas para exercer aquela atividade. Então é preciso preparar um pacote de habilidades socioemocionais que são transversais para qualquer setor da atividade econômica e tentar fazer algum cruzamento de habilidades, indicando algumas atividades possível. Por exemplo, jovens de baixa renda com alto desempenho em matemática no Enem poderiam aprender a programar. Haverá jovens habilidosos nisso que poderão ter empregos de alta remuneração e superar a condição de pobreza. Mas, para isso, é preciso cruzar informação.