Entrevista a Luiz Awazu Pereira | Conjuntura Econômica

Entrevista a Luiz Awazu Pereira | Conjuntura Econômica

Luiz Awazu Pereira da Silva, vice-diretor geral do Banco de Compensações Internacionais (BIS)

Por: Claudio Conceição e Solange Monteiro, do Rio de Janeiro


No início do ano, o BIS lançou o livro e o conceito do green swan, ou cisne verde, quando a crise sanitária ainda estava em seu início. O impacto da Covid-19 mudou alguma coisa nessa análise?
Escrevemos o livro The green swan como uma tentativa de analisar riscos sistêmicos globais ligados a mudanças climáticas para a estabilidade financeira. É o que os economistas chamam de externalidades negativas. E concluímos que muitos desses riscos geram acúmulo de perdas no sistema financeiro, com efeito multiplicador por seu efeito em cascata. Eventos que têm sido observados com mais frequência, como tufões, maremotos, são evidências de que as mudanças climáticas têm potencialmente um efeito destruidor sobre as nossas sociedades, e podem causar crises financeiras gravíssimas. Nessa época, ainda não estávamos pensando na pandemia de Covid-19, mas ela também é um evento ilustrativo do conceito de cisne verde. Como escrevemos em um documento posterior, hoje vários cientistas mostram que, quando você provoca alterações no meio ambiente, isso tem um impacto sobre a biodiversidade, e quando você começa a reduzi-la, diminui barreiras biológicas naturais e assim gera riscos maiores de pandemias como a de Covid-19. Isso ocorre, claro, além das próprias condições que o modo de viver globalizado, nosso modo de produzir e consumir em escala global, criam, aumentando a probabilidade de que algum tipo de epidemia local vire um evento catastrófico global. De certa forma, o que estávamos pensando em câmara lenta sobre mudança climática, a Covid-19 ilustra como um filme acelerado. O efeito sobre nosso funcionamento social que a mudança climática pode trazer, uma paralisação severa da atividade econômica, e que pensávamos que seria gradual, hoje é ilustrado de forma dramática e acelerada com a pandemia.  

Do ponto de vista de banqueiro central, de autoridade monetária, isso é algo que tem que entrar na lista de preocupações pelo seu impacto sobre a estabilidade financeira, que faz parte do mandato da maioria dos bancos centrais (BCs). E achamos que esses riscos climáticos não estão sendo precificados corretamente, um pouco à imagem dos riscos dos produtos “tóxicos” nos balanços dos bancos na crise financeira de 2008, que também não estavam sendo corretamente precificados. É uma espécie de miopia benevolente em nossa maneira de funcionar. Diante disso, nossa mensagem agora, com os desastres ambientais e a Covid-19, é que as consequências do que fazemos, a maneira como nos comportamos como consumidores e produtores, não está levando em conta ou pagando o seu verdadeiro custo social.  Ou seja, precisamos precificar as nossas ações corretamente e ter um sistema de seguros adequado para esse tipo de evento. 

De que forma os bancos centrais entram no fortalecimento do combate às mudanças climáticas, levando em conta o complexo desafio que têm hoje, de colaborar para a reaceleração da economia?
Há algum tempo os BCs já estão envolvidos em questões climáticas. Como supervisores, reguladores, eles sabem que essas mudanças trazem riscos sistêmicos para a estabilidade financeira. Por isso, por exemplo, foi criada uma rede para dar maior sustentabilidade ao sistema financeiro, a Network for Greening the Financial System (NGFS), em 2017. Hoje ela já conta com 69 membros, incluindo o Brasil, e o BIS faz parte do seu secretariado. A ideia central é que o fato dessas mudanças climáticas terem um efeito sobre a estabilidade financeira, sistêmica, seja nacional seja global, faz parte do mandato dos BCs. Então é natural eles se interessarem por questões relacionadas aos riscos relacionados às mudanças climáticas sobre a estabilidade financeira, ou seja, sobre o sistema de bancos, mas também de seguradoras, fundos de pensão etc. Agora, obviamente existe também uma consciência de que os bancos centrais não vão poder salvar o mundo sozinhos na questão da mudança climática. Então, vemos o papel das autoridades monetárias como de facilitadoras, de coordenadoras de várias ações que devem ser endereçadas conjuntamente. Por exemplo, coordenando-se junto aos órgãos reguladores sobre que tipo de regulamentação prudencial pode levar mais em conta a questão do risco para a estabilidade financeira de certos portfólios. 

Esse desafio da mudança climática também implica uma maior coordenação em nível global, pois o tipo de problema que a mudança climática cria é muito complexo para se achar que a coordenação de atores nacionais poderá resolver isoladamente o problema. Como eu dizia, a Covid-19 foi uma versão acelerada desse tipo de problema. Por um lado, mostrou um efeito extremamente negativo, de quão destruidor pode ser um fenômeno global dessa amplitude. Por outro, indicou também que, quando você para a atividade poluidora, você tem uma mudança. Talvez seja preciso usar a dramaticidade dessa crise sanitária para tentar fazer com que o processo de recuperação econômica da Covid seja o mais sustentável possível, que tenha também uma dimensão de redução da pegada de carbono como está sendo proposto pela Europa no seu European Green Deal.

Leia a íntegra desta entrevista na Conjuntura Econômica de setembro.