Índice de Clima Econômico da América Latina volta a cair com piora das expectativas

O Índice de Clima Econômico da América Latina (ICE) recua no terceiro trimestre de 2022 em relação ao trimestre anterior sob influência da expressiva piora das expectativas, e em menor grau, nas avaliações sobre a situação atual. Essa edição da Sondagem traz ainda uma enquete sobre os persistentes gargalos de oferta de insumos e matérias primas e identifica quais são os principais produtos que estão em falta ou com atraso no fornecimento na região.

Seguindo a tendência de declínio iniciada no quarto trimestre de 2021, o ICE recua 12,6 pontos no 3º trimestre de 2022, ao passar de 67,3 pontos para 54,7 pontos. 

Os dois indicadores-componentes do ICE registraram queda em relação ao trimestre imediatamente anterior. O Indicador das Expectativas (IE) recuou 21, 7 pontos, para 65,5 pontos. O Indicador da Situação Atual (ISA) caiu 4,5 pontos, passando de 48,8 pontos para 43,3 pontos. A piora nas expectativas acende um sinal de alerta, pois indica que os especialistas esperam uma desaceleração econômica para os próximos meses. Todos os indicadores estão na zona desfavorável do ciclo econômico.

Na tabela do release, os resultados do 3º trimestre de 2022 foram comparados aos do mesmo período dos anos anteriores. Os indicadores IE e ICE de 2022 mostram queda na comparação com 2019, sendo a maior diferença no IE (-51,7 pontos). Em relação a 2020 há uma melhora no ISA, mas os demais indicadores estão em nível inferior. Na comparação com 2021, são registradas as maiores quedas. 

Clima econômico: Resultados dos países 

O quadro 2 do release resume os resultados do Clima Econômico para as maiores economias da região acompanhadas pelo FGV IBRE.

No quadro 2 do release, os países estão ordenados da maior para a menor variação do Índice de Clima Econômico entre o 2º trimestre e o 3º trimestre de 2022, em número de pontos. O ICE subiu em apenas dois países neste período: Paraguai (9,9 pontos) e Bolívia (1,7 ponto). A maior queda ocorreu no Uruguai (-27,0 pontos). Apesar disso, o Uruguai, junto com o Paraguai, são os únicos países com ICE na zona favorável. O ICE do Brasil recuou 8,2 pontos no período. 

Na avaliação da situação atual, três países registraram melhora (Colômbia, Brasil e Equador). Nos três países, entretanto, a piora das expectativas levou a uma queda do ICE. No Brasil, o ISA melhorou 12,9 pontos, mas o recuo nas expectativas foi de 33,3 pontos. Na Colômbia, a queda em 51,9 pontos do IE superou a melhora de 15,7 pontos no ISA. No Equador, a melhora no ISA (+3,8) não compensou a queda nas expectativas (-7,6 pontos) e o ICE caiu 1,6 ponto. Estão na zona favorável de avaliação Colômbia e Uruguai. A pior avaliação da situação atual é a da Argentina, 6,7 pontos.

Houve melhora das expectativas no Paraguai (44,5 pontos), Bolívia (21,5 pontos) e Chile (7,0 pontos). No caso da Bolívia e do Paraguai, o resultado do IE compensou a piora na avaliação da situação atual e os dois países registraram melhora no ICE, o que não se verificou no Chile, em que houve recuo no ICE. A Colômbia registrou o pior IE, 21,4 pontos.

Em resumo, as perspectivas negativas dominam os resultados do clima econômico no Equador, Brasil, Argentina, Colômbia, Peru e Uruguai. No México, a trajetória é diferente, a queda do ICE está associada a um recuo do ISA maior do que no IE. Para o Paraguai e Bolívia a melhora no IE supera o recuo no ISA e o ICE melhora. No Chile, apesar da melhora do IE, a queda no ISA levou a queda do ICE.

Por último, o Uruguai é o único país que está na zona favorável pelos três indicadores. 

Quesito especial: o problema de abastecimento 

As cadeias de produção e de logística que estavam se reorganizando durante 2021 foram impactadas pelo lockdown na China e pela Guerra na Ucrânia. Uma pergunta extraordinária incluída na Sondagem do 3º trimestre de 2022 procurou saber dos especialistas se o setor produtivo de seu país está enfrentando problemas de abastecimento de insumos e/ou matérias primas. As respostas estão no Quadro 3. Apenas na Argentina predominam respostas que consideram os problemas de abastecimento graves. Nesse caso, questões domésticas de acesso às divisas para efetuar transações internacionais devem estar influenciando as respostas.

Responderam com percentuais iguais ou acima de 50% no quesito — sim, de forma moderada/leve — todos os países, exceto Argentina e Uruguai. Esse último país os especialistas avaliaram que o país “nunca teria enfrentado esse problema”.

Destaca-se o caso do Brasil, onde 13,3% responderam afirmando ser afetados de forma grave, que estaria diretamente relacionado a gargalos no fornecimento de chips e semicondutores. As respostas de “forma leve/moderada” também identificam problemas no abastecimento de chips/semicondutores.

O Gráfico 6 do release mostra a distribuição das respostas por produtos. O principal gargalo são os insumos da agroindústria (35%), seguido de energia (14%), chips e semicondutores (13%), outros insumos da indústria de transformação (11%) e diversos (11%). Os outros percentuais ficam abaixo de 10%. 

É interessante observar que os insumos da agroindústria constituem o principal gargalo. Para o Brasil, como antes mencionado, a questão não parece ser prioritária, apesar da importância do setor nas exportações brasileiras. Na comparação entre o volume de importações acumulado no até julho com o mesmo período do ano passado, adubos e fertilizantes registraram crescimento de 15%. Alguns setores da agroindústria podem estar tendo dificuldades, entretanto, no agregado das importações o aumento no volume indica que a oferta de fertilizantes e adubos está crescendo. 

O Quadro 4 mostra qual o tempo esperado para a regularização do abastecimento dos insumos e matérias primas. A maior concentração das respostas está no 1º semestre de 2023 (35,6%) seguido do 2º semestre (26,4%). Logo, a regularização do abastecimento é esperada para o primeiro semestre de 2023. No Brasil, 46,7% das respostas se referem ao 1º semestre de 2023. 

O pior resultado é registrado na Argentina, com 33,3% das respostas para a regularização somente a partir de 2024, e com igual percentual para os que não sabem responder. A crise na Argentina com escassez de divisas influencia na resposta.