Política

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O futuro da política de transferência de renda pretendido pelo governo Bolsonaro é um tema que chacoalha a convicção de gregos e troianos. Carlos Pereira, da FGV Ebape, descreve o quadro desta maneira: os eleitores mais à esquerda se veem divididos pelo fato de a defesa do aumento de benefícios, que em geral é sua bandeira, também promover um potente retorno eleitoral para o governo de turno, tal como aconteceu na primeira fase auxílio emergencial; já os eleitores de direita, mais arredios a programas como o Bolsa Família, são impelidos a reconsiderar sua posição, graças a essa popularidade conquistada pelo presidente.
 
Pereira acha que a redução do auxílio emergencial e o que virá em seu lugar serão o próximo grande tema dentro da análise do impacto da pandemia na política nacional. Especialmente, diz, no caso dos eleitores de direita. “Até que ponto esse grupo topará um aumento do gasto social, e como reagirá sobre quem vai pagar esse benefício são perguntas importantes. Será que ele estará disposto a um aumento de carga tributária para o financiamento dessa política?”

Para medir o pulso da sociedade sobre esse tema, nos próximos dias Pereira dará início à terceira etapa de uma pesquisa que vem realizando, em parceria com o jornal O Estado de S. Paulo, desde que a pandemia de Covid-19 atingiu o Brasil. A primeira parte desse estudo foi feita entre final de março e início de abril, e buscou identificar a reação da sociedade frente à progressão da doença. A análise dos resultados, publicada na Revista de Administração Pública, apontou que à medida que os indivíduos passaram a ter vítimas fatais em seu convívio próximo, os de perfil de centro e de direita ficaram mais favoráveis ao isolamento e mais críticos à posição do presidente, de minimizar a gravidade da pandemia e enfatizar os impactos negativos na economia. Já a segunda pesquisa, – disparada entre o final de maio e início de junho –, identificou que, passado o forte inicial, a conexão desses eleitores com a postura de Bolsonaro recuperou parte de sua força e, junto ao auxílio emergencial, elevou a popularidade do presidente. 

“Com o auxílio, abriu-se um novo grupo de eleitores ao presidente, que tomou parte do lugar deixado pelos eleitores mais pragmáticos, que que calcularam riscos de continuar apoiando o presidente e passaram a considerar outras possibilidades”, diz. “Agora, entretanto, será preciso observar, de um lado, como a população beneficiada pelo auxílio lidará com a expectativa de redução do valor. E, de outro, como os eleitores originais de Bolsonaro avaliarão o dilema do governo entre a necessidade de ampliar um programa de transferências de renda que substitua o auxílio e a de fazer ajuste fiscal. Especialmente, levando em conta que os custos dessa política social poderão recair sobre eles”, reforça. 

A pesquisa de Carlos Pereira é realizada online, e fica disponível nas redes sociais do jornal O Estado de S. Paulo.