Recuperação

Recuperação

O governo chinês decidiu esta semana, na sessão anual do Congresso Nacional do Povo, que não haverá uma meta para o crescimento do PIB este ano. A decisão, que parece sensata frente ao cenário de incerteza quanto à recuperação das economias globais do choque provocado pela pandemia do novo coronavírus, pode embaralhar a leitura internacional – bem como a doméstica – sobre os rumos que o país tomará este ano, avalia Livio Ribeiro, pesquisador da Economia Aplicada do FGV IBRE. “É a primeira vez em quase trinta anos que isso acontece. Os chineses poderão ter dificuldade em trabalhar sem uma referência, e o mundo poderá ter dificuldade em monitorar o que acontece no país. É um voo cego, que arrisca ser contraproducente”, avalia. 

No Congresso, o governo chinês reiterou o que já estava no radar dos analistas, de que seu foco se concentrará em impulsionar investimentos e na geração de empregos. A diretriz é acelerar. Definiu-se ampliar a meta de emissão dos governos subnacionais em 50% comparado a 2019, além de engordar a indicação de déficit primário, de 2,8% para 3,6% este ano. “Este último não chega a ser um indicador relevante, pois em geral a meta não é cumprida, mas reforça a sinalização de um aumento de gastos”, diz Ribeiro. Já a meta fixada para a taxa de desemprego no final de 2020 é de 6% - próximo da taxa atual, indicando que a preocupação é frear sua evolução além disso. “Nas palavras do primeiro-ministro Li Keqiang, o governo fará tudo para estabilizar e expandir o emprego, nessa ordem”, diz Ribeiro.

No campo da política monetária, pouco se mexeu, com uma meta de inflação fixada em torno de 3,5%. Ribeiro ressalta, entretanto, a menção explícita de possibilidade do uso de novas ferramentas para estimular a economia real diretamente – o que pode representar crédito direcionado com custo mais baixo. “No caso da manutenção de uma meta relativamente alta frente ao processo de recuo da inflação, com o choque de proteína cedendo, serviços também em baixa, considero que é uma sinalização de que privilegiarão uma política monetária acomodatícia.”

O pesquisador do IBRE avalia que a estratégia do país – de voltar à fórmula da “velha China”, caracterizada por forte investimento público, especialmente em infraestrutura – pode ser positiva para o Brasil, cuja pauta exportadora ao país é forte em bens agropecuários e minério. Mas ressalta que um acirramento das relações comerciais entre Estados Unidos e China pode comprometer esse quadro, devido ao alinhamento do governo brasileiro com os norte-americanos. “Era esperado que se Trump identificar que seu projeto político está sob ameaça, os ataques à China voltariam à pauta. O governo brasileiro precisa estar atento quanto às implicações desse cenário para nossas exportações”, diz. A princípio, um dos países que mais se beneficiaria de uma retaliação da China à política externa brasileira seria a Austrália, exportadora tanto de minério quanto de carne. O país, entretanto, também já motivou o descontentamento chinês ao questionar a origem do novo coronavírus, o que fez Beijing barrar a entrada de carne de produtores australianos. "Se soubermos nos posicionar nesse cenário, só teremos a ganhar", conclui Ribeiro.