Voltando ao trabalho em tempos de Coronavírus

Voltando ao trabalho em tempos de Coronavírus

Marcio Ronci - Pesquisador associado do FGV IBRE

Quarentenas compulsórias e fechamento dos negócios para conter o coronavírus são medidas absolutamente necessárias, mas ao mesmo tempo estão causando sérios problemas sociais e arruinando a economia. Não há dúvida sobre a necessidade de medidas sanitárias drásticas, mas também é apropriado reconhecer o custo causado por essas mesmas medidas em termos de vidas e deslocamento econômico se as medidas forem indevidamente prolongadas. É bastante provável que o relaxamento das medidas sanitárias e a reabertura da economia sejam feitas de forma confusa sob condições imperfeitas e venham mais cedo do que esperado, motivadas por deslocamentos sociais causados pela quarentena.

Medidas sanitárias drásticas são essenciais no curto prazo para diminuir a propagação do vírus e permitir que as autoridades de saúde, hospitais e médicos se preparem melhor para servir a população, como corretamente apontaram Ailton Braga e Sebastião Moreira Jr. no BLOG do IBRE. Existe um consenso geral entre autoridades de saúde de que o relaxamento dessas medidas deve ser gradual e seguir pré-condições, tais como a implementação de medidas apropriadas para reduzir a velocidade de propagação do vírus, aumentar a capacidade da rede de saúde e monitorar a evolução do contágio do vírus, por meio de um planejamento cuidadoso e gerenciamento eficiente. Entretanto, essas condições são quase impossíveis de serem atendidas no curto prazo, dada a limitada capacidade de gerenciamento dos governos federal e estaduais.

A capacidade gerencial dos governos e a eficiência dos sistemas de saúde parecem ser o fator determinante para combater com sucesso a disseminação do vírus, conforme sugerido pelo desempenho muito melhor dos países do norte da Europa (Alemanha, por exemplo) em comparação com os países do sul (Espanha e Itália) no combate ao coronavírus. No caso da Alemanha, a quarentena diminuiu o ritmo da propagação de doenças, permitindo que o sistema de saúde mais eficiente tivesse capacidade de cuidar dos doentes, permitindo após um mês a gradual reabertura da economia, enquanto na Itália a capacidade de gestão limitada do governo e o sistema de saúde sistema subfinanciado causaram um resultado pior. Além disso, existem evidências de que as quarentenas para serem efetivas devem ser implementadas no início do surto de vírus, como sugere o caso da Nova Zelândia que impôs uma política agressiva de confinamento. No Brasil, adiar o Carnaval e fechar voos internacionais em fevereiro foi possivelmente uma oportunidade perdida.

Quanto mais a quarentena durar, a perda de vidas devido à recessão reduzirá parte dos benefícios decorrentes da quarentena e aumentará ainda mais a pressão sobre o Sistema Único de Saúde (SUS). Quarentena e fechamento de empresas por longos períodos resultarão em um grande número de falências, um aumento dramático no desemprego e na perda de vidas: para o Brasil, estimativas indicam que, para um aumento de 1 ponto percentual no desemprego, em média, a taxa de mortalidade aumenta e 20 pessoas por 1.000.000 habitantes por ano, de acordo a estudo publicado na Lancet Global Health. Um aumento no desemprego de 5 a 10 pontos percentuais pode causar uma perda de vidas entre 42.000 a 85.000 por um período de dois anos, que é substancial quando comparado ao total de 7.000 mortes relacionadas ao coronavírus até o momento. Ademais, com o bloqueio da atividade econômica, políticas monetárias e fiscais expansionistas terão um efeito mínimo sobre a atividade econômica pois os bens e serviços não poderão ser fornecidos à população porque empresas estão compulsoriamente fechadas.

Devemos aprender as lições do coronavírus para preparar-nos para futuras epidemias virais e permitir que economia possa operar de maneira mais normal possível. A ideia original de quarentena não foi suficiente para conter o vírus no Brasil até o momento, principalmente por causa da capacidade limitada do governo e do sistema de saúde. Estas são questões de longo prazo que não serão resolvidas da noite para o dia. Investir no SUS é essencial bem como estabelecer claros protocolos para medidas sanitárias, quarentenas e reabertura da economia. No momento, estender a quarentena causará mais danos à economia, custará vidas, e não nos protegerá contra o retorno do coronavírus no outono ou de alguma outra pandemia no próximo ano. 

Dada a capacidade limitada dos governos federal e estadual e aprofundamento da recessão, é provável que o relaxamento das medidas sanitárias e a reabertura da economia sejam de forma confusa sob condições imperfeitas e venham mais cedo do que esperado, motivados por deslocamentos sociais causados pelo atual bloqueio da economia. Se o governo federal e os estados não concordarem em reabrir a economia da economia, a agitação social e empresas privadas buscando mandatos judiciais para abrir seus negócios forçarão os governos estaduais a fazê-lo — como exemplifica a situação atual dos Estados Unidos, onde 31 de 50 estados estão reabrindo suas economias, e protestos nas ruas e ações judiciais estão pressionando outros estados a fazer o mesmo. 

É absolutamente necessário ter uma data clara para retornar o país às condições normais de negócios o mais rápido possível para reduzir incertezas, minimizar falências e desemprego. Ao mesmo tempo, a disseminação do coronavírus deve ser contida na medida do possível. É necessário um diálogo entre o setor privado, governos e autoridades de saúde para introduzir maneiras inovadoras de produzir e fornecer serviços aos clientes e proteger seus funcionários. As diretrizes devem ser de caráter educativo e unificadas para todos os estados. Após o término da quarentena, medidas sanitárias não devem ser compulsórias e arbitrárias, mas sim educativas e de acordo com os valores democráticos de uma sociedade aberta que confia no bom senso de seus cidadãos.


Leia este e outros artigos na revista Conjuntura Econômica de maio